Telê Santana: o mestre do futebol como arte
Três anos da morte
Há três anos dia 21 de abril de 2006 morria Telê Santana, um dos técnicos mais importantes da história do Futebol Brasileiro e um dos últimos defensores na seleção brasileira e no futebol nacional do futebol arte atrelado à objetividade pelo gol, contra a imitação servil do futebol europeu
O futebol começou cedo para Telê, mais precisamente no final da década de 40. Sua primeira equipe foi o América Recreativo de São João Del Rey (MG), cujo técnico e presidente era seu próprio pai. Já o primeiro grande clube em que o atacante jogou foi o Fluminense, primeiro no juvenil e depois no profissional. Lá permaneceu pelos 12 anos seguintes e conquistou o primeiro título da carreira, o Campeonato Carioca de 1951, marcando dois gols na decisão contra o Bangu.
Em 1952, ganhou o apelido de "Fio da Esperança", título de um filme que estava em cartaz nos cinemas. Fio devido ao pouco peso (apenas 57 kg). Esperança pelas qualidades como jogador e também pelas várias vezes que decidiu uma partida nos instantes finais. Tanto tempo numa mesma equipe fez com que Telê deixasse seu nome gravado no coração do torcedor do Fluminense. Assim, numa votação promovida pela revista Placar em junho de 2000, Telê foi eleito o quinto maior jogador da história do Fluminense. Depois de defender o Tricolor carioca, Telê ainda jogou no Guarani e no Vasco da Gama.
Foi no banco de reservas, como técnico, que Telê conquistou mais títulos, fama e reconhecimento. Devido ao antigo vínculo com o Fluminense, a equipe juvenil do tricolor carioca foi a primeira a ser comandada pelo técnico, em 1967. Dois anos mais tarde, assumiu a equipe profissional interinamente, sagrou-se campeão carioca e ficou no cargo. Fora do Rio de Janeiro, também conquistou importantes títulos. Foi campeão mineiro com o Atlético, em 1970 e 1988, e ganhou ainda o Campeonato Brasileiro de 1971 com o Galo. No Sul, levou o Grêmio à conquista do Campeonato Gaúcho em 1977. Mas foi no São Paulo que Telê Santana realizou uma trajetória de conquistas jamais equiparada a de qualquer outro técnico brasileiro. Depois de comandar o Palmeiras, sem muito brilho, em 1979, Telê chegou ao tricolor paulista em 12 de outubro de 1990.
Desta vez a história foi diferente. Telê ficou no Morumbi por cinco anos e conquistou uma extensa lista de glórias: bicampeão Paulista (1991 e 1992), campeão brasileiro (1991), bicampeão mundial interclubes (1992 e 1993), bicampeão da Copa Libertadores da América (1992 e 1993), bicampeão da Recopa Sul-americana (1993 e 1994), campeão da Supercopa (1993) e campeão da Commebol (1995).
Em 1997, para tristeza de milhares de fãs que possui em todo o país, adoeceu gravemente e descobriu que sofria de isquemia cerebral, doença que acabaria levando-o à morte.
Do estigma de pé frio na seleção até a reviravolta são-paulina
Outra marca importante na carreira de Telê Santana: ele foi o único técnico que, após perder uma Copa do Mundo (Espanha/82), voltou a dirigir a seleção brasileira no Mundial seguinte (México/86). Mais uma vez o Brasil não chegou ao título mundial. Com uma equipe muito mais fraca que a de 1982, a seleção não empolgou e voltou a terminar na quinta colocação.
Apesar disso, a falta do título em ambas competições marcaram a carreira do treinador.
Em 1986, pouco depois da derrota nos pênaltis para a França na Copa do México, Telê deu uma declaração pessimista sobre o futuro do futebol brasileiro. "No Brasil, o futebol está morrendo. As fórmulas dos campeonatos regionais e do Campeonato Brasileiro não são interessantes. Não são escolhidos os clubes em melhores condições técnicas, mas sim os de maior prestígio".
O fracasso alterou drasticamente a maneira como Telê era querido pela torcida brasileira. De melhor treinador do país, ele passou a ser conhecido como pé frio e incompetente.
Foi crucificado injustamente.
Naquela década, com uma geração de jogadores de grande qualidade técnica, como Júnior, Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico, Telê montou um supertime, tendo essa seleção sido até mesmo considerada por alguns futebolistas - brasileiros e estrangeiros - como uma das melhores de todos os tempos, comparável, e por vezes “superior”, às campeãs de 1958, 1962 e 1970. Um claro exagero.
Uma conjugação de fatores, portanto, deve ser considerada para determinar as causas das consecutivas derrotas brasileiras nesses dois mundiais e não apenas a tradicional e popular caracterização simplória de que “o técnico é sempre o culpado”. Telê acreditava que os jogadores que compunham os elencos de 82 e 86 - mas principalmente o de 82 - eram os que reuniam melhores condições para executar o futebol-arte, desprendido, vibrante, de jogadas improvisadas e em perfeita sintonia com o melhor da tradição brasileira. O que faltou foi determinação, empenho, espírito de luta, características essas ausentes no perfil político-social dessa geração de “craques”, mas que foi marca registrada da geração de ouro do futebol brasileiro, de jogadores humildes, de Leônidas da Silva ao gigantesco Pelé, que superaram todos os obstáculos colocados no caminho daquele país pobre que se consagrou, em 1970, como maior potência futebolística do planeta.
Um treinador na encruzilhada do futebol brasileiro
Telê tornou-se o símbolo de uma das vias de encruzilhada em que se encontrava o futebol brasileiro, entre o futebol arte e o futebol burocrático que viria a dominar o País nas décadas posteriores, em uma imitação servil do futebol europeu.
Falou-se muito das diferenças entre o futebol arte, clássico, alinhado com a melhor tradição brasileira e o futebol esquemático, disciplinado, supostamente mais competitivo. O primeiro poderia ser bonito de se ver, mas, os críticos afirmavam: “não ganhava a Copa do Mundo”. Telê nunca fora partidário da idéia de que o futebol clássico não podia ser também competitivo e vitorioso.
Aliando sua paixão pelo futebol como arte a um evidente provincianismo, condenava o futebol violento, ao ponto de ser avesso ao futebol da força física. Não gostava de jogador violento e, mais ainda, árbitro de futebol que tolerava a violência. Moveu contra eles uma verdadeira cruzada em rádios, TV's e jornais.
O futebol arte concebido por Telê diferia não apenas dos “competitivos” Felipe Scolari e Sebastião Lazzaroni, mas também do treinador que o antecedeu na Copa do Mundo de 1978, Cláudio Coutinho. Este voltara encantado com a Holanda em 1974. Nisso pensava como Telê, fã do time de Cruyff e companhia (que como aconteceria com a seleção de 82, brilhou sem vencer). Só que, enquanto Coutinho acreditava faltar disciplina tática ao jogador brasileiro e desinformação a respeito de overlapings , pontos futuros e outras teorias defendidas por técnicos europeus, Telê acreditava que o que a Holanda tinha de melhor era aquele sentido de improvisação, que só craques com liberdade para se livrar dos esquemas rígidos podiam realizar.
Muitos o criticaram por abrir mão, na seleção brasileira, do ponta fixo, do especialista que corre apenas pela lateral, quando na verdade ele preferia aproveitar a versatilidade de seus jogadores para armar um ataque em que, sem pontas, todos podiam jogar pelas pontas.
Futebol-arte bi-campeão mundial
O mito de que o futebol-arte não pode ser competitivo e vitorioso foi definitivamente enterrado a partir do início da década de 90 sob a batuta do próprio Telê Santana. Telê foi contratado para treinar a equipe do São Paulo onde ficou na qualidade de técnico por cinco anos, um recorde nacional num país onde a rotatividade de treinadores a frente dos clubes seguramente deve ser uma das maiores do mundo. Telê encontrou um elenco formado em sua maioria por jogadores mesclados das divisões de base do próprio São Paulo (Müller, Silas) e outros oriundos de clubes nacionais como Raí e outros, jogadores de grande talento e expressão. Rapidamente, o disciplinado e exigente Telê montou a maior máquina conquistadora de títulos da década de 90, tendo conduzido o time do Morumbi a dois campeonatos paulista, dois títulos consecutivos da Libertadores e a consagração definitiva coma a conquista do bi-mundial em 92 e 93. Praticando um futebol que juntava talento, disciplina, tática eficiente e determinação, o São Paulo reinou praticamente absoluto durante a década de 90 no futebol paulista, brasileiro e mundial.